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segunda-feira, 4 de março de 2013

O Bálsamo de Gileade e a Bíblia


Há um tempo atrás, ouvi um pastor amigo meu, após a pregação, orar para que “o Bálsamo de Gileade” fosse derramado sobre os corações das pessoas. Fiquei pensando: “o que isso significa?”. Que bálsamo é esse?
No dia seguinte, fui conversar com o pastor. Perguntei a ele se havia retirado a referencia do bálsamo da Bíblia ou de um cântico de um grupo chamado "Diante do Trono", da Igreja Batista da Lagoinha. Depois de hesitar um pouco, ele respondeu que foi da música. Para você entender, a música diz o seguinte:

“Vinde, voltemos ao Senhor/ Pois ele nos despedaçou e nos sarará
Fez a ferida e a ligará/ Nos revigorará e viveremos diante dele
Há um bálsamo em Gileade / Há unção em Gileade
Vem sobre mim para curar  / Vem sobre a filha de Sião
Há um médico em Gileade / Há remédio em Gileade
Vem sobre mim para curar / Restaura a filha de Sião”

Eu fiquei preocupado. Vamos dar uma olhada nas referencias do cântico acima e ver de onde veio esta letra. Vamos ver também qual seria a mensagem da música, considerando as suas referencias.

FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICA
                Fundamentalmente a letra da música consiste em uma citação de Oséias 6.1-2 (livro do profeta Oséias, capítulo seis, versos um e dois). Vejamos:

Vinde, e tornemos para o SENHOR, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia, nos levantará, e viveremos diante dele”(Oséias 6.1-2 – Tradução Almeida Revista e Atualizada. Grifo acrescentado).

                A música acrescenta uma estrofe, que parte de uma referencia do verso 8, que fala sobre Gileade (sobre o bálsamo e sobre o médico). 

Agora, vamos analisar o texto bíblico que serve de fundamento para a música. O contexto deixa claro que as palavras que serviram de fundamentação para a música são palavras de um povo cheio de pecados, que não se arrependia, e amava a Deus apenas da boca para fora! Chega a ser assustador. Leia com atenção o texto completo:

“Irei e voltarei para o meu lugar, até que se reconheçam culpados e busquem a minha face; estando eles angustiados, cedo me buscarão, dizendo:
Vinde, e tornemos para o SENHOR, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia, nos levantará, e viveremos diante dele. Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.
Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque o vosso amor é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa. Por isso, os abati por meio dos profetas; pela palavra da minha boca, os matei; e os meus juízos sairão como a luz. Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos. Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim. Gileade é a cidade dos que praticam a injustiça, manchada de sangue. Como hordas de salteadores que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes, pois matam no caminho para Siquém; praticam abominações. Vejo uma coisa horrenda na casa de Israel: ali está a prostituição de Efraim; Israel está contaminado. Também tu, ó Judá, serás ceifado” (Oséias 5.15-6.11 - grifos e destaques acrescentados).

Só para ficar claro, no texto acima os locutores são o SENHOR e o profeta Oséias. Em Oséias 6.1-3 o locutor é Oséias, que expressa o pensamento do povo (texto em vermelho). São palavras de um povo doente, pois ao invés de confiar no Senhor, depositou a sua esperança e a sua fé no rei da Assíria (poder político-economico-militar) - veja Oséias 5.8-14. Depois de citar as palavras deste povo, continua a sua descrição: seu amor é superficial, interesseiro. São transgressores da aliança, infiéis. Seus sacerdotes são como uma “horda de saqueadores”, que cometem assassinatos enquanto se dirigem para o santuário (Siquém). Cometem abominações, como a prostituição – que, nos profetas, costuma ser referencia a idolatria (e confiar no rei da Assíria, ao invés de confiar no Senhor, é expressão de idolatria!).
Dito de outra maneira: o cântico da Igreja Batista da Lagoinha cita as palavras de um povo idólatra, que não amava a Deus de verdade, que tinha uma religião vazia, cujos sacerdotes cometiam homicídios enquanto se dirigiam ao santuário... Um povo que, ao invés de confiar e esperar em Deus, confiava e esperava no rei da Assíria – que, aliás, destruiu Israel!

No verso 8 há uma referencia a Gileade... mas não há referencia a Bálsamo! Pelo contrário: Gileade é a cidade dos que praticam a injustiça, manchada de sangue”. Sendo assim, onde é que a Ana Paula Valadão encontrou o “Bálsamo de Gileade”? A coisa complica se você procurar por outros textos bíblicos que tratam do “Bálsamo de Gileade”. Se você procurar na Bíblia as ocorrências de “bálsamo” e “Gileade” juntas, encontrará três textos:
O primeiro afirma, simplesmente, que os ismaelitas, que vinham de Gileade, vendiam seu bálsamo para o Egito:
 “Ora, sentando-se para comer pão, olharam e viram que uma caravana de ismaelitas vinha de Gileade; seus camelos traziam arômatas, bálsamo e mirra, que levavam para o Egito”(Gênesis 37.25).
O segundo e o terceiro textos que falam sobre bálsamo de Gileade estão no livro do profeta Jeremias:
“Sobe a Gileade e toma bálsamo, ó virgem filha do Egito; debalde multiplicas remédios, pois não há remédio para curar-te”(Jeremias 46.11). 
"Acaso, não há bálsamo em Gileade? Ou não há lá médico? Por que, pois, não se realizou a cura da filha do meu povo?" (Jeremias 8.22).
É interessante que Gênesis 37.25 e Jeremias 46.11 fazem referencia ao Egito: Os ismaelitas vendiam o bálsamo para o Egito, enquanto Jeremias registra um oráculo (palavra de Deus) contra o Egito!
É interessante também que Jeremias 8.22 e 46.11 afirmam que o Bálsamo de Gileade não é capaz de trazer cura para a ferida do povo! Por extensão, o(s) médico(s) de Gileade também não podem trazer cura (Jr 8.22)!!! Consulte um comentário bíblico "decente" sobre Oséias 5.15-7.2. Leia, por exemplo, o comentário do Manual Bíblico da Sociedade Bíblica do Brasil, que dá o título de "Arrependimento que não durou muito" para a passagem de Oséias 6.1-6. Você não vai encontrar  comentário bíblico decente dando enfase ao Bálsamo de Gileade, inclusive em Gênesis 37.25, Jeremias 8.22 e Jeremias 46.11!

Assim, a mensagem que os textos bíblicos anunciam sobre o Bálsamo de Gileade é muito clara:  O BÁLSAMO DE GILEADE NÃO PODE TRAZER CURA PARA A FERIDA DO POVO!

A CURA PARA A FERIDA DO POVO NÃO ESTÁ NUM BÁLSAMO, MAS EM JESUS CRISTO, NOSSO SENHOR E SALVADOR.


CONCLUSÃO
Apesar da extrema simplicidade com que tratamos o assunto, cremos que é o suficiente para concluir, com segurança, que:
a) O cântico “Bálsamo de Gileade”, de Ana Paula Valadão, partiu das palavras de um povo idólatra, superficial, que confiava mais nos homens (rei da Assíria) que no Senhor, e fez dele um cântico de louvor. É algo semelhante a começar a cantar na Igreja uma canção que exalta a verdade e a justiça escrito por Judas Iscariotes, Jezabel ou Balaão, ou mesmo por Renan Calheiros, Fernando Collor de Melo ou José Dirceu.
b) Mais triste ainda, fez uma leitura alegórica acerca de Gileade, que ao invés de fazer referencia a uma cidade de assassinos, como é o contexto do texto bíblico de Oséias, passou, de alguma maneira misteriosa, a se referir ao “bálsamo de Gileade”!?!? É a expressão clara de uma leitura viciada, dependente de idéias estranhas ao texto bíblico, que levam a uma interpretação que fere o texto bíblico e a doutrina.
c) Minha tese é que o meio evangélico brasileiro tem dado uma ênfase exagerada e perigosa a temas como “vitória”, “prosperidade”, “cura”, etc., todos temas legitimamente bíblicos, mas apresentados de maneira distorcida, exagerada.
d) Lendo uma infinidade de sites e blogs sobre o Bálsamo de Gileade, cheguei a uma conclusão: alguém pregou um sermão sobre o Bálsamo de Gileade, com uma interpretação bíblica muito ruim, tendo sido seguido por uma legião de pastores e obreiros que não sabem ler a Bíblia sozinhos, que afirmam que a sua doutrina é apenas a Bíblia, mas que no fundo ficam repetindo sermões e outros discursos dos outros
e) O meu amigo pastor, a que me referi na introdução, apesar de ser um servo de Deus sério, participou deste estouro de boiada que é a teologia apresentada por algumas estrelas do mundo gospel, nem sempre pautadas por uma boa leitura bíblica. Ler a Bíblia, qualquer um lê, mas é necessário que se leia com entendimento. A Igreja Evangélica Brasileira tem trocado os seus mestres (1Co 12.28; Ef 4.11) por animadores de auditório, cantores gospel e vendedores de promessas (ou mesmo de indulgencias evangélicas). 

Ao invés de ficar cantando sobre o “bálsamo de Gileade”, deveríamos cantar sobre o sangue do Cordeiro, que nos limpa de todo pecado.

A Deus toda a glória.

( Leia mais sobre este post em http://marcio-marques.blogspot.com.br/2014/03/o-balsamo-de-gileade-e-biblia-parte-ii.html  )

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